sábado, 12 de março de 2011

Desamador

Parafraseando minha irmã Carol:  "triste é saber que de fato existem pessoas assim."
Cuidado para você não ser um Desamador na vida de alguém!


Desamador

Não sou capaz de amar por piedade. Amar é estar no mesmo nível, com a mesma altura dos ombros, o tremor de balbuciar e logo beijar para não esquecer o que o corpo pede. Não é rebaixar ou cumprir um favor.
Amar não é uma compreensão.
Amar não dá poder, é o despoder. Ensina a generosidade, a vontade de se diminuir para que o amor aumente.
Amar é ceder o gosto, a vida, o futuro. É oferecer a metade da gaveta, da cama, da luz, do banho, da mesa, da folha. É oferecer o que ainda nem se chegou a conhecer.
Tenho, sim, piedade daqueles que empregam o amor como forma de tirania.
Que falam em vão do amor como se fosse fácil encontrá-lo.
Que não exercitam a delicadeza, a retribuição e o cuidado atento, e gritam com quem quer apenas sussurrar. Armam-se do autoritarismo, da vassalagem, da discórdia. Não aceitam o contraponto, a discordância. Para assegurar o domínio, rebaixam seu par para que ele fique dependente, menor, indefeso (não forte, confiante e otimista, como deveria ocorrer e acarretaria independência).
Que envenenam com ofensas, indiretas ou ironias quando sua vítima está desprotegida.
Que não entendem que toda palavra é um pedaço da boca, e que a boca sangra com facilidade.
 Que acreditam que o parceiro ou a parceira não tem escolha e que ficará se sujeitando aos seus terrores e dissabores.
Da figura do desamado, o que sofre solitário, surge o desamador, o que desagrega a solidão e faz sofrer. Porque ele recebe o amor e troça de sua força. Seduz por diversão e hábito, pouco se importando com o envolvimento que se segue.
O desamador dirá depois de usar o amor: “Não prometi nada”. Lavará as luvas para não comprometer as mãos. Omitirá compulsivamente, que é mais repulsivo do que mentir.
O desamador chamará qualquer cobrança de neurose, de doença, de loucura. Fará a pessoa se sentir torta, infeliz, incriminada de rancor. Depois ainda contará para os seus amigos e amigas que está sendo perseguido, e apagará o que não combina com sua versão.
O desamador não fica doente; adoece o mundo.
O desamador não é facultado ao ódio, quem dera! O ódio ainda facilita o amor.
O desamador recorre à intolerância. Chora somente no sufoco, pede desculpas no momento em que é desmascarado, mas não muda, continuará maltratando com a indiferença. Ele não é bom, muito menos ruim; é apático. Seu autoritarismo é a negação da fraqueza. Tudo que acontece de errado em sua vida vai transferir para quem está ao seu lado.
O desamador emprega a crueldade da reticência, do subentendido; não assume suas escolhas. Induz sua companhia a entender; sem dizer nada.
O desamador gera culpa, mais ele exercerá a sua autoridade. Parte da ilusão de que ele ou ela não voltará atrás. Condiciona seu afeto a uma esmola.
Custo a crer que o desamador nasceu do ventre de uma mulher.
                  Autor : Carpinejar (O amor esquece de começar )

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